Hoje me recordo de umas infernais férias de verão que vivi na cidade natal de minha falecida avó. Estava ocorrendo uma epidemia de uma espécie mutante de tse-tse que vitimou algumas pessoas, inclusive um grande amigo meu que não me recordo mais quem foi. Só me lembro da visão grotesca de seu corpo seco, pendurado em um cabide, atrás da porta de sua casa, enquanto os insetos afloravam em todo canto, nas roupas, nos sapatos, rodeavam toda gente e o raro era não estar encostando em pelo menos 30 desses. Mas, voltando ao meu amigo contaminado, ele estava tão descaracterizado dos atributos humanos que mais parecia parte de um casulo de algum inseto bizarro que estava para nascer. Talvez até fosse, mas não soube de mais nada porque tive que voltar, como sempre, a minha enfastiante vida na capital. Sabe como são as coisas, ocupam tão pouco tempo nosso pensamento.
Estranhamente fui convivado à uma festa na Rua Doutor Arnaldo, a rua do Hospital das Clínicas, na cidade de São Paulo. Mas fazia tantos anos que eu não passava por esse lugar que tudo me pareceu bastante mudado, quase como se não houvesse vestígio que me sucitasse a memória as antigas vezes que passei por ali. Percebi isso logo que o ônibus começou a passar por essa imensa rua, e, enquanto eu checava a numeração, pensando em qual ponto seria melhor descer, percebi algo raro ao meu lado, tão raro que resulta absurdo narrá-lo, quase como se eu tivesse inventado, mas juro-lhe que ao meu lado, sentado num banco especial do coletivo, estava um rapaz que, por algum infortúnio, havia perdido a cabeça. Não possuía nada acima do pescoço, e em sua mão direita, segurava aflitamente uma bengala, que provavelmente era o que o guiava. Me causou tanto espanto que desviei o olhar e pensei, logo depois, ser impossível essa minha visão. Precisei conferir o que havia visto, apesar da falta de ganas, o mirei de novo, mas o rapaz, decerto percebendo, sabe-se lá como, meu alarmamento, tinha colocado uma máscara bastante assustadora, que era como sua cabeça morta, com olhos brancos, revirados, no lugar onde originalmente deveria estar, como para me poupar da horrenda visão de um homem vivo sem cabeça, mas, no lugar disso, me propondo uma visão ainda mais terrível, de uma cabeça morta num corpo vivo. Precipitei-me a descer do ônibus e me assegurar que esse sugeito não descesse no mesmo ponto que eu. Porque eu senti medo, e reconheço esse homem, só pode ser um, com tal deformidade tão particular. Quem eu vi, em plena Rua Doutor Arnaldo, próximo ao Hospital das Clínicas, na cidade de São Paulo, não era outro senão Toby Dammit, que apostou sua cabeça com o diabo. E apesar do asco que me causou tal visão, sinto-me honrada em ter conhecido tamanha personalidade, que me ocupou por horas com sensacionais interrogações, e me recordou, mais uma vez , a lição a todos os viventes desregrados. Exulto por tê-lo conhecido pouco antes de seu padecimento, porque vim a saber mais tarde que, infelizmente, Dammit morreu.
Sexta-feira, Novembro 10, 2006
Folheando um livro de medicina, descobriu Otário uns nomes fantásticos para colocar nos filhos. Apresentou à mulher, que ficou entusiasmada; a gravidez era algo que lhe encantava desde molecota, quando brincava com bonecas feitas de pedaços de pau e folhas no jardim de Dona Henriqueta, sua mãe adotiva, que não teve filhos por não possuir útero. Era um casal fabuloso que queria repovoar o mundo de Otários e Idiotinhas (graça da esposa). Escolheram cinco nomes incríveis e esperavam poder utilizá-los todos, cada um em um membro da prole da casta que, tencionavam, se tornaria vasta no menor tempo possível - a partir de hoje, com essa sábia decisão. Nunca lhes havia ocorrido idéia tão fascinante , tanto é que começaram a achar que era fácil utilizar o alfabeto inteiro nomeando o coitado do moleque que ainda nem existia senão em pensamento. E em pensamento mesmo ele já tinha a vida inteira traçada, pois agora esta era a diversão dos futuros papais. A pena - ou a sorte- é que os pensamentos findaram nisso mesmo, pois enquando planejávam a gravidez, um Tsunami atingiu a costa Africana em que moravam, vitimando um único habitante. Nosso protagonista.
Quinta-feira, Novembro 09, 2006
sei que agora vou dormir.
tiro minha luva de pelica
ponho-a na mesa cúbica
com tampa de cerâmica
coloco o tampão
pois sou estrábica
-moléstia cósmica-
(enxergo a vaga oca que não vês)
penduro a túnica
acaricio vértebras fracas
deposito as calças na alavanca
observo as ancas expostas
que ficam abaixo dos flancos
que estão depois das costelas
sôfregas, sedentas por uma dormidela.
ìcaro, quem diria, corres como um galgo
perneta.
capoto na cama até as oito.
Terça-feira, Novembro 07, 2006
austero mesmo é o homem
que sustenta aquelas tetas
por baixo da camiseta
sem estampa
o cabelo cortado rente
vê-se os pêlos brotando
dos poros, barba mal-feita
indiferente às olhaduras sem decoro
também,
quem evita olhar de novo
quando vê um certo homem, que
nem disfarça, com seios tão fartos,
sustentando-os com ar de graça,
mesmo sendo assim
tão desgraçado desse jeito exposto
desse jeito jocoso de circo de aberrações
se portando íntegro, como se os colhões
fossem fortes, e a sorte dele fosse
essa de ser dúbio e ser apenas
um jovem homem de tetas opulentas.
quando o retrocesso é exposto
no espanto da cara dos outros,
os mortos de olhos de peixe,
testas disformes, alturas diversas,
o homem - como uma donzela se porta
sem devolver um fio desses olhares idiotas.
ou melhor, como uma onça, ou uma gaivota,
nada que lembre essa vileza tão humana
e os seios, os de uma musa, será que ele os desnuda a outros?
quem serão os escolhidos desse suposto monstro, tão engraçado e terno
que tem uma beleza varonil e velha estampada no corpo ao mesmo tempo.
os braços marcados de veias, tem até pés de galinha, mas que firmeza tem suas tetas
provavelmente também são macias e novas - a pele lisinha. como uma sereia, um girino
uma lagosta com câncros, estarei eu lhe elucidando ou turvando aquela prima imagem?
veja bem, é um simples homem normal, camiseta branca, com seios grandes, gigantes, mas um homem
de idade mediana. Pegando ônibus. No meio das gentes que em nada se destacam e nada percebem além da estranheza da situação.
Longe de alcançar mais longe que os outros retomo a leitura d´algum livro didático.
falou.
esperei demais por pablo, ele ainda não chegou.
`ninguém presta´ era a frase da festa
que pipocava na minha cabeça enquanto
pela fresta da porta chegava um murmúrio
e vinha a luz, que iluminava o quarto
quase vazio, praticamente escuro.
a silhueta em vulto nada revelador
dos indivíduos do quarto é pano de fundo
da algazarra em plenária que corria lá fora.
atrás daquela porta um tanto parcial
a luz era fascículo, nada de mal,
o gosto de breu e do mundo além
penetranado às lástimas a cabeça
de alguém, incitando os sonhos
rebolindo o rosicler dos que dormem
sem saber que estão sendo controlados
por cada sílaba pronunciada aos berros
por cada pensamento, viagem dos companheiros
materializando-se neles, sombrios.
daquele sóbrio homem de areia vinha a
reunião mais completa, diria até o
panorama do que era realmente a festa,
esse distúrbio em conjunto.
Mas eu. não me lembro do que sonhei
sei que dormi, sei também que mais alguém
estava comigo, dormindo, sempre.
Ouvi os sonhos, sonhei os ditos, e é por isso que digo
abençoado aquele que sonha como ópio
que dorme em pleno lastro do arrebatamento.
Quinta-feira, Outubro 27, 2005
dir-se-ia de passagem
Composição: Caetano Veloso
Todo dia, toda noite
Toda hora, toda madrugada
Momento e manhã
Todo mundo, todos os segundos do minuto
Vivem a eternidade da maçã
Tempo da serpente nossa irmã
Sonho de ter uma vida sã
Quando a gente volta
O rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro não!
A gente não sabe o lugar certo
De colocar o desejo
Todo beijo, todo medo
Todo corpo em movimento
Está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto
Todo pranto, todo manto
Está cheio de inferno e céu
O que fazer com o que DEUS nos deu?
O que foi que nos aconteceu?
Quando a gente volta
O rosto para o céu
E diz olhos nos olhos da imensidão:
Eu não sou cachorro não!
A gente não sabe o lugar certo
De colocar o desejo
Todo homem, todo lobisomem
Sabe a imensidão da fome
Que tem de viver
Todo homem sabe que essa fome
É mesmo grande
Até maior que o medo de morrer
Mas a gente nunca sabe mesmo
Que que quer uma mulher
Domingo, Agosto 21, 2005
é absurdo que
na contra-capa do l´age d´or esteja escrito: "um amor que contrapõe todos esses valores e símbolos"
bom, não é bem isso mas a palavra é CONTRAPÕE.
por deus!
é um absurdo que.
Terça-feira, Junho 21, 2005
Finalmente
extinguiram-se
todas as razões
que me levavam a
vir com certa freqüencia à internet.
Isso não é ruim.
Não é nada, na verdade, t anto faz.
Decidi que prefiro meios de transorte à meios de comunicação. Sério, eles realmente me impressionam. Mas não vou dissertar sobre isso. Não vou dissertar sobre nada por agora. Porque tenho muito a conversar comigo antes de dizer qualquer coisa a qualquer um.
Quinta-feira, Março 10, 2005
são as coisas que me deixam passiva.
Quarta-feira, Dezembro 29, 2004
como assim tiraram do ar meu diarinho?
Quinta-feira, Novembro 18, 2004
Duras penas constataram meus órgãos
vitais ao te verem cada vez mais longe
E querendo diminuir em degradê
minh`alma apurpurada cintiu* no escurecer da tarde
junto aos outros brilhosos vermelhos açaís.
E o lamento era um samba bossa com cuíca choro
e a melodia piegas a entrar copiosa em si,-mim
Eu sutilmente dançarina bela, ocupando meu tempo
sem me dar conta que deveria correr. gritar berrosa por você de volta
chorículo fino que te cortasse profundo e me percebesse amando a ti
e que ficasse. qualquer coisa que o fizesse ficar e
não mais o solene pensar-me sozinha.
sisudo despercebido com o bailado do meu peito.
definho ajoelhado gradativo sou e vejo
a ingratidão tua, minha e de tudo
por ser carne ossos e o comum lugar
Romântico quê intumescido. os calafrios mistificados
mil rosas coração sangrando e adaga de marinheiro.
pensei-me puta do convés abandonada pelo seu amado brutamontes
pensei-me paga e prostituída em palavras
praga e os sangues. ajoelhada na praça te vendo querer-se só.
não me importa do que quer e sim do que não tenho, a falta tua
se fazendo toda de mim, e cadê o espaço o sentido de ser
que parece nunca ter havido. contorções faciais horríveis sem ruído
Preciso, Vem, gritei conseguida
aliviada. e de tão alongado e fino corrente nas águas fortes que nem
apercebi quando
o céu ficou escuro.
Quinta-feira, Novembro 04, 2004
são longuinho.
caderno amarelo, hein?
daí, pra vc, até três pulinhos.
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Ernesto era doutor em puericultura. Costumava subir aos cômodos superiores quando ouvia o sinal de cessar soar. Nesse dia pensou em não ir, mas mudou de idéia quando Jussara disse querer conhecer os tais aposentos. Nossa, deve ser tão emocionante ser médico e trabalhar com coisas de médicos, não é mesmo? Era moça nova e de boa família, por isso ele a levou junto de seu caminho habitual. Ela ficou maravilhada com tantos vasilhames e pipetas, portanto movia-se o mais delicadamente que podia. Pra não quebrar, né. Em setembro noivaram, já que a trepada satisfazia, e ele mudou-se para Minas buscando dinheiro para o tal casamento. Escrevia muito a ela, pedindo-lhe que o esperasse com amor e mil beijos. Isso durou cerca de um ano, e Jussara deitava-se com o professor de violão uma vez por semana. Quem pagava as aulas era a avó, que pagou a igreja no casamento com Ernesto. Jogaram arroz e rosas, e com o dinheiro ganho ele montou uma clínica geral para atender a clientela do bairro. Com tanta coisa assim não teve tempo de notar que a cidade andava mais poluída e o professor aparecia com maior freqüencia. Mas foi melhor, porque logo o plano de fugir de trem com Fausto, o professor, fora esquecido. Brigas por falta de dinheiro, sempre. E a vida foi indo e Ernesto se manteve são até os setenta, sustentando a família como um bom homem deve fazer. Depois de morto é lembrado vez em quando. Após uma chuva, por exemplo, quando as portas incham da umidade, ou quando uma bronca nos netos fica por ser dada.